Make your own free website on Tripod.com
    Coisas de Veado
.
    O domingo agonizava normalmente no Brasil. Hordas de nordestinos saqueavam supermercados a mando do MST e o resto da população, sentada no sofá de curvim, assistia deprimida ao "Fantástico" aguardando a fatídica segunda-feira. Na telinha da TV, bailarinos do Kirov executavam piruetas acrobáticas e diáfanos pas-de-deux. Foi quando uma voz, vinda como do Além, decretou definitivamente: "Isso é coisa de veado!".

    Imediatamente, entidades protetoras dos homossexuais congestionavam os telefones da TV Globo, iradas com a exibição explícita de preconceito com aqueles que praticam o amor que não ousa dizer seu nome. Todas as ONGs gays como o grupo Atobá, o grupo Entubá, o grupo Patolá, o grupo Atochá e o grupo Boiolá enviaram e-mails e faxes acusando o jornalista Pedro Bilau de ser o responsável pelo jocoso e despeitado comentário. Bilau, que é espada, imediatamente tirou o seu da reta e jurou que não foi ele. Ora, se a infeliz frase não estava na boca do Bilau, ela saiu de onde? Da Glória Maria? Do Cid Moreira? Do Zeca Camargo? Do engraçadinho Kubrusly ? Eu acho que foi do meu amigo Léo Batista, o único que fica na Globo até essa hora da noite trabalhando no Domingo !
 


TRANCADO NO Quarto, Agamenon explica aos jovens jornalistas o que é e o que não é coisa de veado

    Mas a questão continua no ar; o balé russo, quando praticado por duas "pessoas" do mesmo sexo, é ou não é coisa de veado?

    Vamos voltar um pouco para trás (sem duplo sentido, por favor) na História e tentar esclarecer de uma vez por todas o que é e o que não é coisa de veado.

    Na Grécia Clássica, os filósofos pré-socráticos e os generais de Esparta já praticavam a coisa de veado, que não era considerada homossexualismo.

    Na Batalha das Termópilas, encurralado no desfiladeiro, o célebre general Leonidas foi informado por um mensageiro aflito que as flechas inimigas eram tantas que poderiam encobrir a luz do sol. Ao que o indomável militar respondeu com as palavras imortais: "Não importa! Combateremos com a bunda!".

    Anos mais tarde (sem trocadilho, por favor), o Imperador Napoleão Bonaparte caiu de quatro diante da espada inclemente de Wellington na Batalha de Waterloo. Tempos depois, o mesmo Wellington virou um apetitoso filé, e foi devidamente comido numa rústica sauna as margens do Tâmisa. Tudo coisa de veado.

  Fica claro, portanto (que é melhor do que por pouco), que a prática da coisa de veado é antiga e milenar, sendo disputada em duas categorias: luxo e originalidade. Mas algumas coisas são mais coisa de veado do que outras, por exemplo: tomar um Saint Remy com uma "pessoa" trancado no quarto, escrever poesia trancado no quarto, praticar artes marciais trancado no quarto, colecionar antigüidades trancado no quarto, encenar peças de teatro infantil trancado no quarto, levar os Rolling Stones para passear na lancha do pai trancado no quarto, tudo isso é definitivamente coisa de veado.
 
    Ou, como diria Machado de Assis, cousa de veado.

    Coisas de Veado (Saiu na coluna do Agamenon do "O Globo" neste domingo, 10/05/98)